Capitalismo, luta de classes, colonização, racismo, imigração, nazismo, férias. Paris, verão de 1960. Há apenas quinze anos, havia ainda a guerra. A um passado recente negro, corresponde um presente igualmente amargo: Guerra da Argélia, esvaziamento político, gaullismo, desencantamento. A França do filme de Rouch e Morin é um caldeirão azedo cuja ebulição suga os indivíduos até a alma – mas, felizmente, eles resistem: e este filme é para eles, para esses indivíduos, ainda que boa parte desses personagens, na cena da exibição do filme no fim, não se satisfaça muito com o resultado final.
Você é feliz?/Êtes-vous heureux? Absolutamente impossível dizer sim à pergunta formulada por Morin e Rouch. Não naquele mundo escuro, de trevas, que encontra seu melhor espelho numa película igualmente suja, escura e mal-iluminada.
O cinema-verdade não tem como ponto de partida a velha retórica do cinema que subscreve na imagem as palavras “Eis o mundo.” Em Jaguar e Eu, um negro, o som (a narração em off) é a contraprova da imagem. Em Crônica de um verão, a sessão com os próprios entrevistados no fim também funciona como uma espécie de contraprova. E o diálogo entre Rouch e Morin que fecha o filme seria então a contraprova da contraprova: só que, para a frustração dos dois, é o momento em que eles percebem que a conta não fecha, que a equação não é exata – há divergências quanto aos resultados do filme. Em sua matemática, os dois descobrem que a verdade é volúvel, e o que se descortina é que essa mesma verdade, para o cinema-verité, não existe – ainda assim, é notável que Rouch e Morin, inconsoláveis, acreditem no próprio filme.
O momento mais forte do filme é provavelmente aquele em que, no meio de uma discussão de um casal entre questões conjugais e gerais, a câmera faz um tilt do rosto confuso da mulher para o seu braço, onde estão estampados os números dos campos de concentração – até então, nenhuma menção ao nazismo havia sido feita no filme e ignorávamos mesmo que a moça era judia. Se hoje é possível que boa parte dos espectadores sequer reconheça o sinal daquela numeração, há quinze anos, no entanto, não: o passado ainda é muito recente (e vivo). O tilt duro e precariamente executado não é um desvio de olhar da câmera: é um desejo irreprimível de registrar a realidade, de pôr os olhos sobre ela. A imagem não apenas pesa uma tonelada; ela muda o nosso entendimento sobre aqueles seres. Um signo paira no interior daqueles corações vazios – um signo marcado sobre a pele, porém. Cinema e História talvez nunca tenham se imbricado de forma tão intensa como neste filme.
E no fim, o verão e as férias dissolvem o resto.