Gostei muito. Num olhar mais superficial, o filme é mais ou menos aquilo que eu esperava, para o mal: boa parte do tempo um filme mais quadrado (ou redondo, depende do ponto de vista) com alguns lampejos que lembrem os filmes anteriores do diretor. Estão lá então a gravação que organiza narrativa (como em Paranoid Park), a "sequência Elefante" ou aquela cena em que Cleve Jones convoca por telefone as pessoas para a passeata, que me remete diretamente a uma outra de Garotos de programa.
Mas a revolução aqui talvez seja outra. Pra mim, é Van Sant finalmente se livrando do mundo de cinema que saturava seus filmes anteriores, abraçando a intuitividade que já dava boas amostras na direção de Paranoid Park, indo diretamente ao ponto, àquilo que importa acima de tudo, a imagem. Em Milk, as imagens aparecem como que nuas, desligadas de um centro conceitual que opere cima delas. Todo o empenho de Van Sant se dá então num trabalho de assentamento dessas imagens, que se dá de forma muito delicada, bonita mesmo.
Gosto do filme basicamente porque ele é feito na base da simplicidade, no amor às boas imagens (as belas imagens, que ficaram no tempo, opacas, vedadas pelos figurinos, pela direção de arte e pela fotografia envelhecida). E se o procedimento eleito é outro, a montagem, o articular constante das imagens umas nas outras, é essencial por exemplo o fato de o filme já começar com o assassinato de de Milk anunciado (e numa imagem de arquivo, da TV), porque cria um espaço mais livre e afetivo de distribuição das imagens.
Ao mesmo tempo é muito inteligente a forma como o Van Sant consegue articular as coisas da vida do personagem - o lado mais abertamente político, especialmente, que torna as coisas mais complexas que um mero memoir chapado. E tem a forma como ele introduz o personagem do Dan White, pouco a pouco mas sem medo (tem aquela cena ótima em que ele chega bêbado no aniversário de Milk, isso sem falar na sequência final, que vem como que "entubada", porque chupada diretamente de Elefante, uma força incompreensível atravessando e rompendo o presente, a imagem).
Acharia muito bom se o próximo trabalho do Van Sant fosse ainda mais "certinho", que Milk não fosse apenas um desvio de caminho, por se tratar de uma biografia - um material sobre o qual o autor tem menos margem de manobra, portanto. Tenho certeza de que estou trabalhando numa hipótese bastante positiva (é mais provável mesmo que Van Sant retroceda a seus projetos estéticos totalizantes - embora muito bons), mas vamos esperar pra ver.
11.3.09
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