1.4.09

No centro do quadro



Sendo Gran Torino um filme com um protagonista, é sempre para este que a câmera penderá. Não recorremos ao ponto-de-vista, porém. Tudo diz respeito a questões de cinema mais básicas, ligadas à própria constituição da imagem naquilo que nela há de mais primordial. Gran Torino não tem a elegância dos filmes anteriores de Eastwood, mas reata um laço que andava um pouco disperso ultimamente em sua dramaturgia: a psicologia do personagem e os lugares concretos que este elemento ocupa na imagem. Sem se deixar seduzir por maneirismos (e seria diferente, em se tratando de Eastwood?), a direção alcança seu centro e coleta dados e informações insurgentes que saltam ora próprio personagem-protagonista, ora ao seu redor. É um trabalho difícil, de esforço mesmo, porque os seres não são mesmo figuras fáceis, ainda mais se vistos em sociedade – há muito em volta de Walt, isso sem falar no que há dentro dele próprio. As culturas brotam ao seu redor, como uma avalanche cruzando o ambiente. E é disso que a mise-en-scène precisa dar conta, do mundo de Walt e das coisas que passam à sua volta.

A câmera aqui é generosa, ela se submete ao mundo material que pretende registrar. O objeto em primeiro lugar. Daí vêm os contorcionismos deselegantes de uma entidade que avança ansiosa em direção ao mundo, uma entidade que felizmente procura, se entrega a esse mundo - a câmera: aberta, disforme, oscilando aqui e ali, algo especialmente visível no caso dos enquadramentos subjetivos rodopiantes que vez ou outra aparecem. Psicologia posta em cena na matéria: Walt sempre no centro do quadro. É uma dramaturgia em forma de tufão, e não alongada e extensa como em A troca. E, no mesmo sentido, uma dramaturgia do esforço, da busca por compreender, abarcar seu personagem central. É foda, Eastwood finalmente chegou a ponto.

0 comentários: