9.8.09

Marasmo

Para mim, o pior de À deriva nem é aquilo que ele tem de francamente publicitário: os personagens chapados, que depois se viram ao avesso para servir ao andamento da trama/drama (este ponto é claramente mais prejudicial para a personagem da Deborah Bloch, e me parece mais bem resolvida no caso do Vincent Cassel, embora cause uma sensação de idiotia no filme como um todo). Até aí é possível entender o filme uma ficção tosca filtrada pelo olhar da menina protagonista – a encenação chapada = olhar parcializado, o que não tira ao sentimento de vácuo, já que nenhuma das descobertas expostas pelo filme é trabalhada por meio de sensações.

(Os joguetes de câmera da direção eu me abstenho de comentar, porque de fato não dá pra comentar nada sobre eles, de nada servem: câmera sub-aquática, travelling em PG criando plongezão do casalzinho namorando sobre a pedra etc.)

Agora, o que até então era apenas uma idéia má executada, fica terrível pra mim quando o filme simplesmente entrega a personagem protagonista para o Cauã Raymond. E não só entrega, como abandona: abandona na elipse. Porra, se você tem uma protagonista, e se o filme é em boa parte trabalhado sob o ponto de vista desta personagem, o mínimo que você tem que fazer é acompanhar ela - cuidar dos personagens eu nem falo, porque aí já seria demais, algo que realmente não pertence ao repertório da maioria do cinema brasileiro contemporâneo.

Mas um negócio chamado ponto-de-vista é algo demasiadamente complexo para alguém como Heitor Dahlia.

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