4.12.09

Lembrete para mim mesmo

Walter Salles, Karim Ainouz e Marcelo Gomes = Sanguessugas

Carlos Reichenbach = cineasta de verdade

5 comentários:

bruno andrade disse...

O Carlão é "de verdade" inclusive quando erra, o que definitivamente faz dele um cineasta viril. Longe este de ser o caso - o da verdade e o da virilidade, no erro e no acerto - das sras. Salles, Ainouz e Gomes.

Escreva mais.

Calac disse...

pra mim tem a ver também com o próprio domínio sobre fundamentos básicos do cinema: o plano, o ator, a ferramenta dramática, o dispositivo. é isso que faz um cineasta, no sentido do ofício mesmo - é se ver com esses fundamentos básicos do cinema. com falsa loura, esse domínio parece completo - é um filme nu, ou quase.

na boa, não vejo muita diferença, a não ser em graus de talento, entre filmes como linha de passe, o céu de suely e cinema, aspirinas e urubus. falando em termos de projeto de cinema - é a mesma coisa. o auto-entorpecimento com as próprias imagens, a frivolidade batendo escancarada na fotografia. a imagem como ponto de partida e ponto de chegada.

e eu no fundo nem sou lá um grande detrator dos filmes do Ainouz e Gomes, mas depois de ver aquele troço feito pelos dois no fest rio percebi que a coisa podia ser mais grave.

Calac disse...

agora "sanguessugas" me parece adequado porque é isso que eles fazem: sugam da imagem tudo o que podem. eles não criam nada (um mundo, por exemplo) porque simplesmente ignoram os fundamentos básicos do cinema - é algo que simplesmente não faz parte vocabulário. então eles apenas sugam dali tudo o que podem (sugam do imaginário do nordeste ou das periferias, dos personagens criados por eles ou das imagens do próprio filme) pra ver se no final oferecem alguma coisa, um drama bonitinho, pitoresco ou singelo...

bruno andrade disse...

Essa questão me interessa um bocado, por isso quis comentá-la aqui. Como é raro vê-la discutida em qualquer forma e em qualquer nível no Brasil (é como se os críticos insistissem que essas questões não existissem, que "mais ninguém vê essas coisas"), não pensei duas vezes em comentá-la.

Acho que isso que você disse sobre eles não criarem nada é bastante procedente e se dá, acredito, por duas razões. A primeira é que, apesar do que declaram em entrevistas e proposições, eles confundem sim ímpeto criador com onisciência e onipotência: a partir do momento em que esses filmes adotam um ponto de vista unívoco da afetividade (= demonstrações gratuitas de frivolidade afetiva, ausência de virilidade, sexualidade vulgar e grosseira na maioria desses filmes), das relações efêmeras (= incapacidade de estabelecer e posteriormente filmar relações estreitas e bem delineadas entre os personagens, o que exige muito mais do dramaturgo e posteriormente do cineasta), da transitoriedade (= na maioria das vezes mera arbitrariedade que se conforma melhor a uma narrativa que procede por meio de eventos avulsos que não exigem muito nem do dramaturgo nem do narrador que há, ou deveria haver, nestes cineastas), a partir deste momento estamos no exato oposto do que seria a verdadeira liberdade de um cinema que suprime a onipotência do criador para ascender à evidência do mundo, à imanência de si (e do aparato pelo qual pôde acessar essa evidência, essa imanência, que seja). O curioso destes cineastas é que as escolhas que fazem nos seus filmes - de ponto de vista, ou de oclusão deste - jamais partem de uma espécie de "índice" fornecido pela presença do mundo como índice (das coisas como objetos, da existência como essência); eles se encalacram num universo puramente mental (que, pior, não se pretende assim - vide as rugosidades e os "acidentes" que o trabalho fotográfico e sonoro - como também as caracterizações dos personagens e a busca pelo décor menos teatral possível - perseguem) e confundem - sem dúvida por conta de uma mentalidade recente, acadêmica, covarde e burguesa, que pretende determinar o que é ou não o real a partir da percepção que se tem deste; a partir, portanto, daquilo que o real não é - sensorialidade com percepção. Confundem a transmissão de um impulso primitivo e abstrato com a representação mental de uma coisa concreta (ou abstrata - mas de uma ponta a outra já saímos da porção reptiliana do nosso cérebro, e não por acaso o cinema deste senhores apresenta esse aspecto viscoso, e as purpurinas que encrostam as epidermes dos personagens de Ainouz podem muito bem ser vistas como escamas).

bruno andrade disse...

A segunda razão é mais grave e se alastra como tendência num cinema de pequeno alcance (Desplechin, Todd Haynes - o proto-Ainouz -, Assayas, as menininhas brasileiras) que se pretende, ou pelo menos assim se quer, mundial, e que é talvez o cinema mais provinciano que se faz hoje: eles confudem ontologia com linguagem, o que significa, para retomar uma expressão do Godard, "confundir o terreno com o instrumento", confundir o mapa com a extensão da área. Neste sentido, o verdadeiro legado das teorias (aberrantes, doentes, abissais) do Michel Maffezoli não está somente na moda e na publicidade, mas também - e eu diria que sobretudo - nos filmes desta leva (sobretudo nos de Assayas, que se empanturra de Maffezoli e depois quer arrotar Débord).

Quando eu disse "escreva mais" não era para desenvolver mais a questão - acho que posta assim, laconicamente, aforisticamente, já está de bom tamanho. Quis dizer para atualizar mais o blog mesmo.